terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Marc Bloch (1886-1944)

"Alguns, estimando que os fatos mais próximos a nós são, por isso mesmo, rebeldes a qualquer estudo verdadeiramente sereno, desejavam simplesmente poupar à casta Clio contatos demasiado ardentes. Assim pensava, imagino, meu velho professor. Isto é, certamente, atribuir- nos um fraco domínio dos nervos. É também esquecer que, a partir do momento em que entram em jogo as ressonâncias sentimentais, o limite entre o atual e o inatual está longe de se ajustar necessariamente pela média matemática de um intervalo de tempo(...) Na verdade, quem, uma vez diante de sua mesa de trabalho, não tiver a força de poupar seu cérebro do vírus do momento será bem capaz de destilar suas toxinas até num comentário sobre a Ilíada ou a Ramayana." (p. 61/62)

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2002.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pierre Bourdieu (1930-2002)

"(...) tomar verdadeiramente o partido da ciência é optar, asceticamente, por dedicar mais tempo e mais esforço a pôr em acção os conhecimentos teóricos adquiridos investindo-os em pesquisas novas, em vez de os acondicionar, de certo modo, para a venda, metendo-os num embrulho de metadiscurso, destinado menos a controlar o pensamento do que mostrar e a valorizar a sua própria importância ou a dele retirar diretamente benefícios fazendo-o circular nas inúmeras ocasiões que a idade do jacto e do colóquio oferece ao narcisismo do pesquisador." (p. 59)


BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 4. ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

François Bédarida (1926-2001)

"Enfim, na medida em que toda busca da verdade está ligada a um corpus de valores, a interface entre história e ética, enquanto uma e outra permanecem separadas por uma linha de demarcação nítida, pode mostrar-se tão fecunda quanto necessária, contanto que seja enunciada claramente e inteligentemente articulada. Tanto mais que, quanto mais o objeto histórico responde por riscos fundamentais tais como a vida e a morte do homem, mais o diálogo parece necessário. Aliás, diante de semelhantes riscos, como poderia o discurso histórico, obeservando o rigor e a sobriedade de praxe, permanecer impessoal e gélido? Queira-se ou não, a história é, e deve continuar sendo, uma disciplina humanista." (p.151)

BOUTIER, Jean.; BOUTRY, Philippe.; JULIA, Dominique... Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: Editora UFRJ: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1998.